[Entrevistado da Semana]: Jornalista e blogueiro Ben Oliveira / O jornalismo após a graduação



Ben possui um blog sobre Literatura e Cultura em Geral. Possui sete contos publicados  em seis antologias.

Em entrevista ping-pong concebida por email, o jornalista Ben Oliveira, 25, comentou sobre a sua formação acadêmica e o jornalismo após a faculdade.  A entrevista foi elaborada para a categoria #EntrevistadoDaSemana, do blog Papos da Raposa. Na ocasião, Ben debateu sobre o seu blog, assim como a sua visão em relação ao profissional da área de Comunicação Social. Formado em jornalismo, também é escritor e já teve sete contos publicados.


Ben Oliveira
Reprodução: Facebook

Ben é sul-mato-grossense, formado no curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo (2005) pela Universidade Católica Dom Bosco - UCDB.

O seu currículo é composto por quatro experiências na área do jornalismo. Logo no início da graduação, o jornalista criou um blog sobre Jornalismo, Tecnologia e Comunicação - Blog de Ben Oliveira - , que hoje é pautado por Literatura e Cultura em Geral. 

O blog já ajudou diversos acadêmicos, profissionais da área e professores, com os textos e conteúdos recomendados. Ben também é escritor, e inclusive tem 7 contos publicados em 6 antologias. A sua meta é se tornar um escritor profissional.


Segundo Ben, "O jornalista é o profissional que vai informar o público, e quando ele não entende a mensagem direito, a comunicação fica comprometida – ele corre o risco de contribuir para a desinformação. Logo, o jovem percebe a carência de leitura crítica e de uma escrita mais reflexiva." Acrescenta, ainda, "que muitos jornalistas (e estudantes) ficam tão presos às “fórmulas” de como escrever uma notícia ou uma reportagem, que deixam o texto todo quadrado, engessado."

Uma entrevista pingue-pongue bem bacana. A pauta é sobre o jornalismo após a faculdade. 

Lucas Almeida: Ben, atualmente você trabalha na área do jornalismo? Se sim, como foi o processo seletivo e qual função você exerce? Se não, como é o mercado de trabalho na área do jornalismo em seu estado?

Ben Oliveira: No momento não estou trabalhando. Desde o meu último estágio estou fora do mercado de trabalho, época onde tive os meus primeiros contos publicados. Estou tentando engatinhar como freelancer e alavancar o alcance do blog (onde lucro com os anúncios do Google), mas os resultados não são dos melhores, por causa do baixo interesse do brasileiro por temas como a Literatura e Comunicação. O mercado de trabalho em Mato Grosso do Sul não é tão interessante como no eixo Rio-São Paulo. A maioria das vagas de assessoria de imprensa e repórteres, por exemplo, são para empresas da área rural.

LA: O que você faz para estar próximo das rotinas da profissão?

BO: Para não enferrujar, mantenho o meu blog, onde escrevo diariamente. O foco principal tem sido escrever resenhas sobre livros para incentivar a leitura, principalmente de autores nacionais. Além das recomendações de obras, também já entrevistei alguns colegas escritores, pois acredito que os escritores nacionais contemporâneos não são tão valorizados quanto deveriam ser. A previsão é que em breve eu publique a página oferecendo serviços como freelancer: redação de artigos para web, uma área que está crescendo bastante.

LA: Durante a graduação quantos e quais estágios complementaram o seu currículo?

BO: Durante a graduação estagiei em quatro lugares, dos quais o primeiro foi voluntário, a própria universidade (UCDB), na área de radiojornalismo, produzindo podcasts e gravando entrevistas. Em seguida, estagiei numa empresa que oferecia passeios de turismo em Bonito (MS), escrevendo releases, artigos para a internet e administrando os perfis das mídias sociais. O terceiro estágio foi como um freelance, eu escrevia artigos também sobre turismo e a cultura de Mato Grosso do Sul para uma empresa que vendia produtos, valorizando a identidade regional. O último estágio foi numa empresa de E-commerce (Comércio Eletrônico), na qual eu escrevia artigos sobre produtos, administrava as redes sociais e ajudava a impulsionar as vendas através do marketing digital.

LA: Como você analisa a importância do estágio enquanto universitário?


BO: Acredito que o estágio seja fundamental para complementar a formação. Somente a graduação não é suficiente para que o aluno aprenda o jornalismo. A prática é tão fundamental quanto à teoria, porém é importante ressaltar que só a prática, sem a teoria, é o que contribui para a decadência da profissão. Durante os anos do curso, é possível observar muitos estudantes com preguiça de ler, aprender, sair da zona de conforto. Após formados e dentro do mercado de trabalho, estes profissionais recém-formados que já não tinham o hábito de ler e buscar o conhecimento, agora usam a falta de tempo como uma desculpa, se tornando o típico jornalista “que sabe um pouco de tudo e muito de nada”.




LA: As oportunidades para trabalhar na área enquanto estudante são bem maiores do que jornalista formado. Concorda? Por quê?

BO: Relativo. Veja bem, teoricamente a vaga de estagiários deveria ser menor do que a vaga de jornalistas. Há uma legislação sobre o estágio para acadêmicos de jornalismo, embora ela não seja cumprida em todos os lugares. No meu blog, inclusive, eu escrevi um post recomendando a leitura de um documento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) abordando essa questão polêmica. Essa normatização é para evitar que os profissionais sejam substituídos por estagiários, já que para muitas empresas significa um menor gasto (mão-de-obra mais barata). Todavia, os jornalistas que perdem o seu espaço não são os únicos prejudicados. Os estagiários acabam ficando sem supervisão, diminuindo bastante a qualidade do conteúdo produzido.

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LA: Em Mato Grosso do Sul qual a função do jornalismo que proporciona mais oportunidade de estágio e emprego?

BO: Assessoria de Imprensa (Área rural). Aqui em Mato Grosso do Sul o agronegócio é muito forte. Infelizmente, é uma área com a qual eu não tenho a mínima afinidade.

LA: Você, em algum momento, pensou em desistir da profissão? Algo fez você parar pra pensar se estava no caminho certo?

BO: Pergunta interessante, já que me formei em Jornalismo, mas até o momento não atuei na área profissionalmente. Durante os últimos anos de graduação, comecei a escrever meus primeiros contos. Desde então, estou me aventurando na Jornada do Escritor. O que é isso? É a jornada pela profissionalização como escritor, que inclui escrever diariamente, muita leitura (não só de literatura), participar de concursos literários e ter minhas histórias publicadas. Até o momento, tenho 7 contos publicados em 6 antologias com outros autores. A previsão é de que até o final do ano, tenha mais 2 contos publicados

LA: É uma livro somente seu?

BO: Tive um romance que foi um dos 37 pré-selecionados do Prêmio SESC 2013, foram mais de 200 livros inscritos, o que me deixou feliz. Este ano, estou participando de mais dois prêmios literários; se eu for vencedor de algum, a obra será publicada, como prêmio – uma ótima vantagem para quem está começando a escrever! Se os romances não forem vencedores, já tenho algumas editoras em mente, e se nada der certo (o que acho difícil), quem sabe rola uma autopublicação.

LA: Como era a sua percepção do jornalismo enquanto universitário e agora formado?

BO: Minha percepção não mudou muito. Tive um professor que me incentivou a estudar não só a área do jornalismo (teórica e prática) e da Comunicação Social, como áreas complementares como a Filosofia, Psicologia e Sociologia. A influência dele, sem dúvidas, marcou minhas impressões sobre a profissão, e agora, mais do que nunca, vejo como a Literatura também deveria ser incentivada. Nunca fui idealista a ponto de achar que poderia mudar o mundo, como muitos estudantes de jornalismo. Confesso que me decepciono quando vejo algumas reportagens mal escritas, a manipulação e distorção de fatos, a desinformação. Outro fato interessante é observar que muitos jornalistas (e estudantes) ficam tão presos às “fórmulas” de como escrever uma notícia ou uma reportagem, que deixam o texto todo quadrado, engessado. Falta um pouco de leitura crítica e de uma escrita mais reflexiva.

 O jornalista é o profissional que vai informar o público, e quando ele não entende a mensagem direito, a comunicação fica comprometida – ele corre o risco de contribuir para a desinformação.



LA: Como você analisa a obrigatoriedade do diploma no curso de jornalismo?

BO: Quando eu estava na graduação achava algo positivo. Aliás, acredito que qualquer formação ajude muito no desenvolvimento profissional. Porém, o que dá para observar é o seguinte: Ter um diploma não é garantia de que a pessoa realmente se dedicou durante os anos da graduação. Muitos universitários veem no diploma a oportunidade de se garantirem no mercado de trabalho, mas empurram o curso na barriga. Levando em conta, então, que o diferencial do diploma seria uma graduação bem feita, há muitos profissionais recém-formados que não assimilaram bem os conteúdos e estão trabalhando, muitas vezes, por causa das indicações. Sendo um pouco pessimista, o diploma só faz diferença se a graduação serviu para o aluno refletir e colocar em prática o conhecimento, caso contrário, é só um pedaço de papel.  

LA: Em relação à valorização do jornalista, sejam as condições de trabalho e salários, como você analisa?

BO: Estou fora do mercado de trabalho, mas tenho muitos colegas e amigos profissionais dentro. Sinceramente? O jornalista é um profissional desvalorizado no Brasil. Como diria um professor que eu tive: “O jornalista é um peão, é uma peça. Se ele estragar, coloca outro no lugar”. Basta ver durante esses últimos anos o número de redações que têm fechado por causa da crise dos impressos. O jornalismo tem sido confundido com entretenimento, sensacionalismo, apelação pela visibilidade – basta olhar o número de curtidas, compartilhamentos e visualizações que têm uma reportagem séria e um texto pseudojornalístico recheado de frivolidades. Não são todas as empresas que respeitam a hora extra do jornalista, a mesma coisa com os estagiários. Os salários ainda são baixíssimos, levando em conta que há profissionais que ganham praticamente o mesmo valor investido na mensalidade da graduação. Certa vez, ouvi o caso de uma jornalista pós-graduada que recebiam R$ 800, numa carga horária de 8 horas. O que dizer? Tem estagiário que ganha mais do que isso e trabalha menos. As condições em algumas empresas são vergonhosas. Os jornalistas são ótimos em ajudar a informar a população sobre as lutas de grupos e péssimos em lutarem pelos seus próprios direitos. São profissionais silenciados, diariamente, e muitas vezes esse silêncio significa, literalmente, a morte.



LA: Quando você estava no último período da faculdade, o que você pensava? Havia algum receio (ou medo) de enfrentar o mercado de trabalho?

BO: Quando eu estava no último ano, eu estava estagiando. Eu tinha a opção de tentar ser efetivado numa empresa onde eu não estava mais aprendendo nada e cuja atuação era mais da área de marketing do que do jornalismo em si, ou me arriscar no mercado de trabalho tradicional da cidade. Até este momento, tenho me segurado ao máximo para não trabalhar nas redações daqui e poder continuar avançando como escritor. Meu receio é o de me transformar em mais um desses jornalistas autômatos que escrevem sobre o que não gostam, não entendem, só porque é o que dá dinheiro ou porque é o foco da empresa. Eu, por exemplo, dificilmente ficaria contente trabalhando na editoria de política, sabendo que há uma manipulação evidente nos veículos de comunicação.




LA: O que foi o seu Trabalho de Conclusão de Curso? Qual o motivo da escolha do tema? Teria alguma dica para os estudantes a respeito do TCC?

BO: Meu TCC foi um documentário sobre o Escotismo e a formação de cidadãos. A motivação do tema foi pela afinidade que uma colega tinha com o escotismo – logo ela entraria como a apaixonada pelo tema e eu equilibraria dando o viés jornalístico, imparcial. O resultado ficou bacana! Entrevistamos vários jovens do movimento e a conclusão foi que essa interação, os exercícios, o contato à natureza, ajudavam e bastante a contribuir para a cidadania.

Caso alguém tenha interesse em assistir, aqui está o link: Clique Aqui

LA: Você possui um blog sobre jornalismo, Tecnologia, Comunicação, Escrita e Leitura. Qual a sua ‘contribuição’ em relação ao blog no jornalismo? Acredita que estudantes da área aprendem através das suas publicações?

BO: Acredito que minha contribuição esteja relacionada ao incentivo à leitura e a organização de informações difíceis de encontrar na internet. Por exemplo, um dos assuntos que teve um feedback alto foi o das Teorias do Jornalismo, especificando de forma breve cada uma delas. O blog ajuda a informar o leitor, porém a busca pelo conhecimento é muito pessoal, exige energia e concentração. Digamos que eu recomende um livro de jornalismo ou um artigo sobre comunicação. A resenha ajuda a orientar o leitor sobre o que ele vai encontrar no livro ou artigo, quais os pontos principais e por que vale a pena ler. Agora se ele vai ler o material na íntegra, é uma ação que parte do estudante. Eu diria que é um trabalho de 50%-50%.

LA: O que você fez logo quando concluiu a graduação? Buscou novos conhecimentos em cursos de extensão, especializações, mestrado? Você teria alguma dica sobre isso?


BO: Lá vou eu ser pessimista novamente. Nem sempre o mercado de trabalho valoriza o profissional com especialização e mestrado, é claro, isso é muito relativo! Eu recomendaria ao recém-formado a buscar conhecimentos sempre. Não importa se formalmente, buscando um curso, pós-graduação e mestrado ou estudando em casa mais sobre a comunicação, o jornalismo e outras áreas complementares.

 O conhecimento obtido durante a graduação é básico. Cabe ao profissional correr atrás dos seus objetivos! Tenho em mente uma pós-graduação sobre Leitura e Produção Textual, que me ajudaria como jornalista e escritor ou fazer um Mestrado voltado para a área de Letras. Essas especializações fazem toda a diferença de acordo com a área que o profissional deseja seguir. Por exemplo, se você gosta de Moda, dificilmente vai aprender algo sobre o assunto durante a graduação de Jornalismo, e vai precisar ler livros da área, buscar cursos, conhecer profissionais, tudo isso por conta própria. É importante buscar um direcionamento. A vida é muito curta para sermos especialistas em tudo, seria impossível.

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Sobre Lucas Almeida

Lucas Almeida, 20, cearense, é estudanste de jornalismo. Tem interesse em Assessoria de Imprensa, Web Jornalismo e Audiovisual. Criou o blog Papos da Raposa com a finalidade de ajudar estudantes de jornalismo através de artigos, dicas, entre outras categorias.
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4 comentários:

  1. Muito bacana, Lucas! Muito obrigado pela oportunidade de participar do seu blog e contribuir de alguma forma.
    Te desejo sucesso, para que continue com esse trabalho maravilhoso de ajudar jornalistas recém-formados e estudantes de jornalismo a debaterem sobre a área da comunicação e jornalismo no país.
    Abraços!

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  2. Ben, agradeço a disponibilidade da entrevista. Muito importante para o Papos da Raposa. Como já sabe, o seu blog foi a fonte de inspiração para a construção do Papos da Raposa. Parabéns por seus conhecimentos. Sucesso a nós, aos nossos projetos.

    Obrigado!

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  3. Parabéns pela entrevista.

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    1. Grato pelo comentário. Volte sempre ao Papos da Raposa.

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É um prazer tê-lo no Blog Papos da Raposa. Ah, e obrigado pelo o comentário. Volte sempre!